Crônica V
Quando se perde aquilo que mais se amou, não há nada mais a fazer. Não há dor pior a sentir. Não dá pra pensar em outra forma de seguir a não ser desistir. Por outro lado, se aprende a lição: uma vez perdida a coisa preciosa e rara, ilumina-se o caos de modo tal que a turva consciência descobre: não tenho mais nada a perder. E, em sendo assim, vive-se. Sim, menos completo, menos feliz. Menos tudo. Mas não há dor pior a cravejar a carne com sua espada. Encontrar-se com o infortúnio dessa perda é caminho sem margens, do qual só se vê um sol sempre pálido e uma lua minguante, ambos vagarosamente temporais. É que o espaço-tempo transmuta-se em mesmice, tédio e mais dor. Sem expectativas. Somente um calor que não aquece, um sabor que não se degusta. Inerte, uma pele sem armadura, uma carapaça fina, pela qual todo respingo passa e vira tempestade. Fico pensando no que fazer quando não há mais nada a fazer, pois se perdeu aquilo que mais se amou. E vejo na sombra que me assombra, sem sombra de dúvidas, que não há mais nada a fazer.
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