Te musicarei em trechos

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Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna

Crônica V

Quando se perde aquilo que mais se amou, não há nada mais a fazer. Não há dor pior a sentir. Não dá pra pensar em outra forma de seguir a não ser desistir. Por outro lado, se aprende a lição: uma vez perdida a coisa preciosa e rara, ilumina-se o caos de modo tal que a turva consciência descobre: não tenho mais nada a perder. E, em sendo assim, vive-se. Sim, menos completo, menos feliz. Menos tudo. Mas não há dor pior a cravejar a carne com sua espada. Encontrar-se com o infortúnio dessa perda é caminho sem margens, do qual só se vê um sol sempre pálido e uma lua minguante, ambos vagarosamente temporais. É que o espaço-tempo transmuta-se em mesmice, tédio e mais dor. Sem expectativas. Somente um calor que não aquece, um sabor que não se degusta. Inerte, uma pele sem armadura, uma carapaça fina, pela qual todo respingo passa e vira tempestade. Fico pensando no que fazer quando não há mais nada a fazer, pois se perdeu aquilo que mais se amou. E vejo na sombra que me assombra, sem sombra de dúvidas, que não há mais nada a fazer.

📖♥

Crônica IV

À noite, mais tranquilo, passadas já mais de vinte e quatro horas depois do início da tormenta, um halo de paz te trespassou. Consegui ver o primeiro brilho no seu semblante, como uma iluminação divina em meio às altaneiras trevas. Sua recusa em falar foi suavizando e se transformando em repetidos pedidos de desculpas e múltiplos agradecimentos. Eu, que sequer tinha potencial pra ser herói, sabia da importância daquela demonstração do meu amor. Mas, ainda que sua gratidão fosse visível, eu só queria que você ficasse totalmente reconstruído. E algo me dizia que ainda não estava, os seus silêncios entregavam mais do que sua voz. Foi quando você disse o motivo que desencadeou a crise, e seu olhar de novo se nublou, e então eu entendi em que zonas abissais morava a sua dor: o medo de que eu te deixasse em abandono de partida.

Crônica III

A névoa que pairava sobre o seu coração era inapreensível. Seus olhos fugiam dos meus, você os baixava olhando para seus pés. Havia febre e frio. Trancados no quarto, tudo fechado, o calor do meio-dia incrivelmente não era um bafo impiedoso. Eu me perguntava se ou quando aquilo acabaria, a vontade de chorar me assustava. Não, chorar não, ser forte, seja forte, força, fortaleza. Havia cansaço nas olheiras, nos braços, as horas pararam no relógio. Suas lágrimas iam e voltavam, eram um cântico negro, o mundo escorria pelo seu rosto. E o meu abraço, por mais que afrouxasse por instantes de breve esquecimento, rapidamente te cingia com o calor da calmaria. Calmaria aqui fora e para mim. Porque dentro de você era só devastação. E respirar te doía.

Crônica II

Naquela noite chuvosa, você pediu apenas que eu te abraçasse em forma de conchinha. Sabia que meu braço iria doer, mas prometi deixá-lo ser seu travesseiro até a dor e a dormência se tornarem insuportáveis. Você chorou tempestades, seus soluços eram como goteiras, seu corpo tremia no ritmo dos trovões, seus pesadelos eram relâmpagos frios. E eu te abraçava, cheirava o seu cabelo, dizia baixinho “eu tô aqui, eu tô aqui”. Você adormeceu na madrugada, seus olhos eram puro inchaço. Acordou incontáveis vezes, parecia perseguido por trevas que eu não via. Aquela crise tinha algo de diferente, sua depressão havia tomado uma proporção descomunal, e eu sei que o seu medo era que eu fosse covarde, que eu corresse de você ao invés de estender o peito e fazê-lo sua cama. Te envolvi nas asas do silêncio, da calmaria, hora após hora, vencendo o sono cada vez que você se mexia.

O dia amanheceu, meu braço suportou todas as dores, eu estava ali, mas você ainda era noite. O sol batia na nossa janela. Mas ainda chovia sobre você.

Lascívia

Teu beijo fez um laço
Enredando o arrepiado braço
No membro rijo na calça.
Meu pescoço, tela em branco,
Num abraço foi mordido e
De pelos eriçados, tingido.
Sem pudores e com malícia,
Mordo teus lábios dançantes,
Minha língua em valsa lasciva
Tateia teu pulsar que extasia,
Confundindo bocas, beijos e virilha.

Teu beijo é sol ao meio-dia.

#pequenosescritores #poesiasim